quarta-feira, 4 de julho de 2012

Poesia


Ausência

A alta colina fez parte da minha infância,
assim como o muro gasto pela chuva e pelo tempo.
Os frondosos plátanos da colina também fizeram parte
das muitas tardes da infância,
assim como o vermelho do barro do chão batido
e os antigos retratos dos que ali repousam em paz.

Éramos duas crianças correndo soltas
por entre as lápides do cemitério.
Éramos duas crianças livres correndo ingênuas
por entre as lápides do cemitério.
Éramos três espíritos brincando felizes e em harmonia,
pois a pureza das crianças
faz com que se tornem próximas
das almas que ali estão.

Estávamos próximas de ti.

Éramos duas crianças fortemente ligadas
à jovem e bela mulher que te visitava
todas as tardes e deixava as lágrimas rolarem sobre o teu túmulo.

Éramos duas crianças e tua alma.

Ligadas à quem mais parecia apenas uma moça,
a jovem mulher a quem chamávamos de mãe,
que chorava e rezava sobre o teu túmulo.
Sofrida e abalada por tua causa.
Por tua breve presença neste mundo
e longa ausência em nossos corações.

Éramos todos quatro crianças
que não entendiam o que acontecia
e qual a explicação lógica para a tua morte.

Certamente nestes momentos
partilhamos contigo nossa infância
e te sentimos presente em nós.
E serás eterno, como os anjos.

E ainda hoje, quando passo por aqui
e vejo as enormes copadas dos plátanos,
te imagino iluminado.

Esvoaçando teus lindos cabelos crespos ao vento.
E vejo também a cor dos teus olhos
misturada com as folhas verdes das árvores.
E sinto o cheiro desses momentos
emanado das flores secas que ali estão depositadas.

Serás sempre parte de nós.
E sabemos que o que nos consola
é a certeza de que um dia te reencontraremos
e seremos novamente quatro crianças.

Porém, todas muito felizes.

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