A casa na
árvore
Meu pai não
tinha muito talento para as artes, nem para consertar coisas, muito menos para
construí-las como os outros pais geralmente o fazem.
Numa certa
altura da infância, talvez influenciada pelos filmes de Tarzan que assistia na
sessão da tarde, resolvi que precisa ter uma casa na árvore, uma “casa do
Tarzan”. E comecei a insistir com meu pai que fizesse uma para mim, todas as
vezes que ele estava lidando pelo pátio, serrando lenha ou mexendo em sua
lambreta, cercava-o com meus argumentos. Minha mãe só espiava da janela
basculante da cozinha, com cara de pouco crédito.
Um dia,
então, meu pai, que cedia a todos os meus caprichos concordou com a ideia e
resolveu dar andamento no projeto. Em poucos minutos a “casa” estava concluída.
Consistia em uma tábua colocada na forquilha de um pé de goiaba, sem escada,
sem nada. Nossa, eu achei o máximo e já empoleirei-me sobre a dita tábua
levando alguns brinquedos para lá. E, na minha imaginação, era mesmo uma ótima
casa, com tudo, não faltava nada e brinquei nela durante muito tempo, até que
meu tamanho permitisse, alheia aos protestos da minha mãe que cada vez que me
via subir na “casa” gritava: “- Vai cair daí, menina!” e se o pai estava junto:
“- Elói, tu não vê que a guria vai cair!”. Nunca caí da casa, nem a tábua, que
foi somente encaixada na árvore, sem pregos, sem nada, caiu. É certo que às
vezes, a tábua virava, ficando meio de lado, então esperava o pai chegar para
que a colocasse no lugar. E ele vinha e colocava a tábua de volta no lugar com
seriedade, e compromisso comigo, pois, para ele também estava tudo bem e nada
havia de errado com o seu projeto.
As crianças
têm mesmo anjos da guarda muito fortes, como rezam os ditos populares.
