Esta é uma manta de tricô para casal. Você pode dizer “ah,
uma manta”. Porém, não apenas um simples cobertor, mas foi tricotada com
agulhas n. 5, em uma única peça. Como é possível?
É difícil de imaginar, mas
numa tarde, quando cheguei na sua casa, lá estava Isaura Zini, diante dos meus olhos,
tecendo como uma máquina um ponto perfeito com duas agulhas muito finas para um
cobertor, na maior habilidade. E, daquelas mãos saíam mantas e casacos 7/8 para
as lojas de Canela e também para os conhecidos.
Eu a conheci, há mais ou menos 25 anos atrás.
Alta, magra, cabelos lisos, curtos e ruivos, unhas sempre compridas e pintadas
com cores vivas, descendente de alemães e italianos, Isaura era uma destas
pessoas que a gente não passa imune, pois era intrigante, inteligente, habilidosa,
exímia cozinheira, excelente costureira e... muito cheia de histórias. De
assombração, de mistérios, de paixões fulminantes, de amores perdidos, de moda
e de comida boa. Uma criatura cheia de ideias esquecida em São Francisco de
Paula.
Toda vez que ia a São Francisco de Paula, visitar minha
querida amiga e irmã de coração, Márcia Zini, ficava hospedada na casa da sua
avó, Dna. Tecla e de sua tia Isaura. Com o passar dos anos fizemos uma grande
amizade e, muitas vezes, na euforia dos meus vinte anos, preferia a companhia
desta senhora à das amigas da minha idade. Com ela aprendi algumas coisas
apenas, dentro do seu maravilhoso universo: detalhes do tricô, sempre uma
grande paixão que tive, um truque em uma receita como “volta e meia dar uma
mexida no sagú, depois de pronto” para ficar com as bolinhas grandes. “No
frango assado coloque o dente de alho com casca para ficar mais suave”, e
assim, iam suas dicas...
Um dia, antes de subir a serra, me deu uma vontade
incontrolável de levar um presente para a “Aia”, como era carinhosamente
conhecida. E, dentro das minhas parcas posses de estudante, da época, fui à uma
loja de 1,99 e comprei um anjinho, destes para enfeitar o quarto. Quando ela
viu o presente seu rosto iluminou-se de contentamento. Duas semanas depois,
minha amiga ligou-me, aos prantos, dizendo que ela havia falecido. Nas suas
agulhas estava uma manta de casal que seria para meu enxoval, conforme sua promessa e generosidade. Mais tarde, ao
organizar seus pertences, Dna. Tecla, carinhosamente pediu à Márcia que uma das
mantas que estavam prontas fosse-me dada de presente, já que era um desejo
dela.
Uma grande amiga que partiu e deve estar no céu ensinando
outros anjos a tecer, a cozinhar, a bordar. Parece que ainda estou vendo-a na
janela da cozinha fumando um cigarro e tomando um copo de cerveja, prazeres que se
permitia. (sábado, 31/05, tarde chuvosa, tarde de lembranças)
2 comentários:
Lindo texto Gisa! Adorei! :)
Oi, Michele, conforme conversamos, uma forma de relembrar boas coisas e bons sentimentos! Bjssss
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