terça-feira, 1 de julho de 2014

Meus tesouros - manta de casal em tricô



Esta é uma manta de tricô para casal. Você pode dizer “ah, uma manta”. Porém, não apenas um simples cobertor, mas foi tricotada com agulhas n. 5, em uma única peça. Como é possível? 

É difícil de imaginar, mas numa tarde, quando cheguei na sua casa,  lá estava Isaura Zini, diante dos meus olhos, tecendo como uma máquina um ponto perfeito com duas agulhas muito finas para um cobertor, na maior habilidade. E, daquelas mãos saíam mantas e casacos 7/8 para as lojas de Canela e também para os conhecidos. 

Eu a conheci, há mais ou menos 25 anos atrás. Alta, magra, cabelos lisos, curtos e ruivos, unhas sempre compridas e pintadas com cores vivas, descendente de alemães e italianos, Isaura era uma destas pessoas que a gente não passa imune, pois era intrigante, inteligente, habilidosa, exímia cozinheira, excelente costureira e... muito cheia de histórias. De assombração, de mistérios, de paixões fulminantes, de amores perdidos, de moda e de comida boa. Uma criatura cheia de ideias esquecida em São Francisco de Paula.




Toda vez que ia a São Francisco de Paula, visitar minha querida amiga e irmã de coração, Márcia Zini, ficava hospedada na casa da sua avó, Dna. Tecla e de sua tia Isaura. Com o passar dos anos fizemos uma grande amizade e, muitas vezes, na euforia dos meus vinte anos, preferia a companhia desta senhora à das amigas da minha idade. Com ela aprendi algumas coisas apenas, dentro do seu maravilhoso universo: detalhes do tricô, sempre uma grande paixão que tive, um truque em uma receita como “volta e meia dar uma mexida no sagú, depois de pronto” para ficar com as bolinhas grandes. “No frango assado coloque o dente de alho com casca para ficar mais suave”, e assim, iam suas dicas...

Um dia, antes de subir a serra, me deu uma vontade incontrolável de levar um presente para a “Aia”, como era carinhosamente conhecida. E, dentro das minhas parcas posses de estudante, da época, fui à uma loja de 1,99 e comprei um anjinho, destes para enfeitar o quarto. Quando ela viu o presente seu rosto iluminou-se de contentamento. Duas semanas depois, minha amiga ligou-me, aos prantos, dizendo que ela havia falecido. Nas suas agulhas estava uma manta de casal que seria para meu enxoval, conforme sua promessa e generosidade. Mais tarde, ao organizar seus pertences, Dna. Tecla, carinhosamente pediu à Márcia que uma das mantas que estavam prontas fosse-me dada de presente, já que era um desejo dela. 

Uma grande amiga que partiu e deve estar no céu ensinando outros anjos a tecer, a cozinhar, a bordar. Parece que ainda estou vendo-a na janela da cozinha fumando um cigarro e tomando um copo de cerveja, prazeres que se permitia. (sábado, 31/05, tarde chuvosa, tarde de lembranças)

2 comentários:

Michele Borges Brasil disse...

Lindo texto Gisa! Adorei! :)

Meninas e Meninos Maus disse...

Oi, Michele, conforme conversamos, uma forma de relembrar boas coisas e bons sentimentos! Bjssss